O que existe de mais perigoso quando se fala em Jean-Luc Godard? Submeter-me ao rótulo de pseudo-cool-underground-blasé, ou cair na obviedade de falar bem de um cinesta vanguardista? Mas se o que vale é a intenção, pois bem! "Viver a Vida" (Vivre sa Vie, França, 1962) soa com um afago no rosto, seguido por um tapa com luva de pelica.
A história é a de uma jovem vendedora de discos, Nana (Anna Karina), que acaba cedendo as "facilidades" da dura vida de prostituta, e que segundo o narrador “vendeu seu corpo, mas guardou pura a alma”.
Para ela, tudo que acontece em nossas vidas é de nossa total responsabilidade, não deixando espaço para que o mundo exterior intervenha no nosso destino. No entanto, a seqüência final representa, claramente, o oposto, ou seja, como, muitas vezes, fazemos parte de um jogo em que cada movimento é determinado por forças externas.
"O pássaro é um animal com exterior e interior. Tire o interior e sobrará o exterior. Tire o exterior e verá a alma". Pássaro, símbolo da liberdade. Nana não é um pássaro, Nana não é livre - assim como todo ser humano.
O filme é cortado em 12 quadros (ou episódios) e cada qual representa a via-crucis da protagonista.
O que pude perceber na obra, é uma desconstrução da idéia de liberdade, e de que até que ponto podemos conhecer o ser humano.
E Godard nos desafia a conhecer a protagonista: Nana de perfil, Nana de frente para a câmera, depois de costas para a câmera, depois chorando no escuro do cinema, fumando um cigarro em um café, prestando depoimento cabisbaixa, flertando com a câmera, dançando, se auto-descrevendo... De um plano a outro, a iluminação varia para encobri-la de sombra ou banhá-la de luz. Esta é a beleza do filme: a luz e sombra. Godard filmou o eclipse de um rosto, o rosto da belíssima Anna Karina.

Um filme envolvente.
À maneira de Godard.

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